O Grande Circo do Voto: Onde a Extrema-Direita Odeia Pobre e a Esquerda Esqueceu que Ele Existe


Se há algo fascinante no cenário político atual, é a capacidade inacreditável do brasileiro de olhar para o próprio prato vazio e pensar: “Sabe o que está faltando aqui? Um liberalismo tacanho embrulhado numa bandeira e um discurso moralista!”
Parabéns aos envolvidos. A maior parte do país resolveu abraçar com força a extrema-direita. Um projeto político impecável, cuja principal pauta para a periferia é, aparentemente, oferecer Deus no discurso, bala na prática e a promessa gloriosa de que, se você trabalhar 18 horas por dia entregando marmita de bicicleta, um dia o livre mercado te transforma em herdeiro. Pauta social? Direitos trabalhistas? Comida barata? Ora, para que perder tempo com isso se o importante é travar a guerra cultural contra moinhos de vento? É o ápice do masoquismo eleitoral: o povo escolhendo a dedo quem tem horror a pobre.
Mas não sejamos injustos. A extrema-direita não conquistou esse espaço sozinha. Ela teve uma ajudinha luxuosa de uma esquerda que simplesmente perdeu a mão no volante.
Enquanto a quebrada tentava descobrir como pagar a conta de luz e o quilo do arroz, a esquerda institucional resolveu se trancar no ar-condicionado da academia para inventar novos vocabulários. Criaram um ecossistema de pautas tão distante da realidade concreta que parece piada. Fingem não ver o óbvio: a desigualdade social continua rachando o país ao meio, mas falar de salário mínimo, saneamento e transporte público virou "cafona" perto dos novos debates identitários gourmetizados.
A esquerda parou de falar a língua da periferia. Desaprendeu a conversar com o trabalhador de ônibus lotado e resolveu palestrar sobre ele, como se a favela fosse um laboratório acadêmico habitado exclusivamente por seres angelicais. E aqui entra o maior autoengano de todos: a mania ingênua de achar que todo mundo na periferia é vítima indefesa, pura e sem contradições. Notícia de última hora: o trabalhador periférico também quer segurança, também quer prosperidade, também tem suas ambições e, surpresa!, não é tão inocente quanto a bolha universitária gosta de romantizar.
Ao se recusar a encarar a realidade nua e crua da rua — com suas durezas, desejos e complexidades —, a esquerda entregou o território de bandeja para o discurso simplista da extrema-direita. O resultado? Um país polarizado entre o sadismo conservador que rifa o pobre e o elitismo progressista que não sabe em qual linguagem pedir licença para conversar com ele.
No fim das contas, quem fica no meio dessa palhaçada é quem tem discernimento e memória. Quem sabe que política não é torcida de futebol, e que passar pano para incompetência de estimação — seja da direita truculenta ou da esquerda cirandeira — é o caminho mais rápido para continuar sendo feito de trouxa.
Seguimos em frente. Sem personagem, sem ingenuidade e, acima de tudo, sem medo de dar nome aos bois.
Olá, eu sou Uiara Ashanti, gostou do conteúdo? Me siga nas redes sociais e deixe o seu comentário.




Comentários