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Quem é Você, Brasil? Uma Reflexão Sobre Voto, Memória e Representatividade

Foto do escritor: Uiara Ashanti
Uiara Ashanti
17 de set.
8 min de leitura

Uiara Ashanti - Artesã do Pensamento.
Uiara Ashanti - Artesã do Pensamento.

Estava aqui pensando com as minhas tranças sobre um assunto delicado, mas muito necessário, especialmente em tempos de eleição. Não escrevo para convencer ninguém ou mudar a sua opinião. Minha intenção não é essa. Mas te convido a ler esta conversa até o fim.


Voto desde os meus 18 anos e hoje estou na casa dos 40. São mais de duas décadas de exercício do voto e, diante de tudo que já vivemos como país, me pego pensando: o que realmente mudou ao longo do tempo? O que podemos considerar um avanço real em uma nação que ainda luta para entender a própria identidade?


Muitas vezes, percebo as pessoas mostrando suas preferências e levantando bandeiras nas redes sociais. Acho o engajamento interessante, mas sempre me pergunto: essas escolhas são baseadas em quê? Quantos de nós realmente conhecem a própria história e de onde vieram?


Não faço essas perguntas para deslegitimar as escolhas de ninguém. Faço porque acredito que conhecer a nossa história pode ampliar a maneira como enxergamos o presente e, principalmente, as possibilidades de futuro.


O Retrato Diário do Preconceito e da Negação


Ao levantar essas perguntas nas redes, as respostas que recebi revelam o tamanho do desafio que enfrentamos. Não é preciso ir longe para perceber como o preconceito e a negação da nossa história aparecem no debate público.


Basta olhar para algumas reações comuns quando questionamos a ausência de lideranças negras e indígenas no poder:


"Vai escolher pela etnia ou pela cor? Se já tiver algum adequado, a gente não precisará nem votar."
"E precisamos? Só Getúlio Vargas e JK fizeram mais que todos esses em 500 anos de nação."
"Indígenas são minoria como conseguiriam eleger alguém, além disso as aldeias vivem em estados diferentes."

Essas falas me fazem pensar. Por que a busca por representatividade é tantas vezes interpretada como uma escolha baseada apenas na cor da pele? Por que, quando questionamos a ausência de determinados grupos nos espaços de poder, a discussão rapidamente se transforma em uma dúvida sobre a capacidade dessas pessoas?


É justamente nesse ponto que me pergunto: por que a imagem de quem pode ocupar os espaços mais altos de poder no Brasil continua tão associada à branquitude? Em um país formado por diferentes povos, histórias e origens, por que ainda parece tão difícil imaginar outras possibilidades de liderança? Não estou questionando o direito de pessoas brancas ocuparem esses espaços, mas a ideia de que esse lugar lhes pertence naturalmente. O que me inquieta é a permanência de um padrão que, por tanto tempo, fez da presença branca a referência de poder, enquanto a presença negra e indígena continua sendo tratada como exceção.


Não se trata de defender que alguém seja escolhido apenas por sua origem ou aparência. Trata-se de questionar por que a presença de determinados grupos parece tão natural nesses espaços, enquanto a de outros ainda precisa ser explicada, justificada ou colocada à prova.


Quando olhamos para a história do Brasil, encontramos séculos de desigualdades, exclusões e disputas pelo direito de participar das decisões que definem os rumos do país. Não podemos ignorar esse passado e esperar que seus efeitos simplesmente desapareçam.

E, quando falamos dos povos indígenas, será que estamos realmente considerando a diversidade de suas histórias, suas organizações e suas formas de participação política? Ou ainda os enxergamos como se fossem uma população distante, isolada e sem condições de participar das decisões nacionais?


É esse tipo de questionamento que me interessa. Não quero desmerecer ninguém. Quero entender por que algumas presenças são consideradas naturais, enquanto outras continuam sendo tratadas como exceção.


Apagamento, Origem e os "Donos da Terra"


Esse apagamento não começou hoje. É resultado de uma história marcada pela colonização, pela escravização, pela exclusão e pela construção de uma sociedade que, durante muito tempo, reservou os espaços de poder a determinados grupos.


Quando penso na presença dos povos originários, não consigo separar essa discussão da nossa relação com a terra. A história do Brasil não começa com a chegada dos portugueses, muito menos com a formação do Estado brasileiro.


Os povos indígenas têm histórias, culturas e vínculos territoriais que antecedem a própria ideia de Brasil. E essa presença não está restrita à Amazônia. Está espalhada por diferentes regiões do país, ainda que muitas vezes seja pouco reconhecida.


Ao refletir sobre isso, me pergunto: como podemos falar de identidade nacional sem considerar aqueles que já estavam aqui antes de o Brasil receber esse nome?


Todos nós, de alguma maneira, carregamos histórias de deslocamentos, encontros, rupturas e misturas. Mas reconhecer essa diversidade não significa apagar as diferenças entre os nossos percursos históricos. Tampouco significa ignorar os direitos dos povos originários sobre seus territórios.


Reconhecer quem são esses povos e a profundidade de suas histórias é também reconhecer que a formação do Brasil não pode ser contada a partir de uma única perspectiva.


E é justamente aí que a discussão sobre representatividade ganha outra dimensão. Não se trata apenas de quem ocupa um cargo, mas de quais histórias, experiências e perspectivas conseguem chegar aos lugares onde as decisões são tomadas.


Quando olhamos para a história política do Brasil, Nilo Peçanha é frequentemente apontado como o primeiro presidente negro do país. Sua identidade racial, entretanto, ainda é objeto de debates e interpretações históricas.


Nascido em Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, governou o país entre 1909 e 1910. As representações visuais de sua figura também levantam questões sobre o embranquecimento e a maneira como a sociedade brasileira lidou com a presença negra nos espaços de prestígio.


E aqui surge outra pergunta: por que ainda sabemos tão pouco sobre tantas figuras negras que participaram da construção da nossa história?


Não estou dizendo que a história deva ser reescrita para substituir um grupo por outro. Estou dizendo que ela precisa ser conhecida em sua complexidade, sem que determinadas presenças sejam sistematicamente colocadas à margem.


Além das Siglas e dos Partidos


Hoje não me prendo a partido nenhum. Isso não significa que eu seja indiferente ao que acontece no país, muito menos que não tenha posicionamento político. Pelo contrário.


Escolho votar em pautas e projetos que realmente façam sentido para a minha vida e para a sociedade que desejo construir. Não voto apenas porque gosto de uma sigla, porque determinada pessoa está liderando um partido ou porque alguém me diz em quem devo votar. Ainda bem que não sofro desse fanatismo.


Sou uma mulher que precisa do SUS, faço meu corre diário, trabalho como escritora autônoma e busco construir meu caminho com autonomia. Minha vida não acontece dentro de uma disputa partidária. Ela acontece no mundo real, onde as decisões políticas afetam o acesso à saúde, ao trabalho, à educação, à dignidade e às oportunidades.


Defendo os direitos humanos, a igualdade social e a democracia. Também acredito que o mundo pode evoluir sem que precisemos abandonar valores fundamentais, como a preservação da memória, o respeito, os limites e o reconhecimento da ancestralidade.

É nesse sentido que me identifico com um conservadorismo moderno e consciente: ser apartidária não significa ser indiferente. Tenho valores que considero fundamentais, mas não entrego meu pensamento a um partido ou a uma liderança. Não se trata de defender tudo que existiu no passado, mas de compreender que nem tudo aquilo que tem valor precisa ser descartado em nome do progresso.


Da mesma forma, acredito que o progresso precisa ser acompanhado de responsabilidade, respeito e compromisso com a dignidade humana.


Não me considero de direita ou de esquerda apenas porque me identifico com determinadas ideias. Existem conceitos presentes nas duas correntes com os quais me afino, desde que não estejam associados ao extremismo ou à negação dos direitos de outras pessoas.


É exatamente por isso que digo e me posiciono como apartidária. Não boto minha mão no fogo por partido nenhum; eu voto por pautas. Voto por conquistas sociais que garantem a nossa sobrevivência e a nossa dignidade no dia a dia.


Quando olhamos para a história recente do Brasil, percebemos direitos que hoje parecem normais e "eternos", mas que são frutos de lutas recentes e necessárias:


  • O direito das mulheres ao voto, reconhecido em 1932, e a ampliação de sua autonomia civil, com o Estatuto da Mulher Casada, em 1962;

  • A consolidação dos direitos trabalhistas na CLT (1943);

  • A saúde como direito universal e a criação e regulamentação do SUS (1988/1990);

  • O racismo como crime inafiançável na Constituição (1988);

  • A Lei Maria da Penha (2006);

  • A Lei de Cotas nas universidades (2012), atualizada em 2023, quando estudantes quilombolas foram incluídos entre os beneficiários.


Pendo para o progresso, para a ordem democrática e para a liberdade de pensar. E acredito que tudo na vida deve ser questionado, inclusive aquilo em que nós mesmos acreditamos.


Afinal, se não somos capazes de questionar as nossas próprias convicções, como podemos compreender as dos outros?


O Descompasso na História dos Altos Cargos


Quando observo a história política brasileira, percebo que a presença de pessoas negras e indígenas nos espaços de poder foi marcada por barreiras e por conquistas que não podem ser ignoradas.


Existiram — e continuam existindo — pessoas que abriram caminhos importantes para que outras pudessem ocupar esses espaços.


Entre elas, podemos lembrar:

  • Laélia de Alcântara: médica e primeira senadora negra do Brasil, que assumiu o mandato em 1981.

  • Benedita da Silva: primeira mulher negra eleita para o Senado, em 1994, e primeira mulher negra a governar o Rio de Janeiro, em 2002.

  • Edilene Lôbo: primeira mulher negra a integrar o Tribunal Superior Eleitoral, em 2023.

  • Marina Silva: mulher de origem humilde, que se tornou senadora e ministra de Estado.

  • Joaquim Barbosa: primeiro ministro negro a presidir o Supremo Tribunal Federal.

  • Pedro Lessa e Hermenegildo de Barros: juristas negros que integraram o Supremo Tribunal Federal na primeira metade do século XX.

  • Benedito Gonçalves: magistrado de carreira, ministro do Superior Tribunal de Justiça e corregedor no Tribunal Superior Eleitoral.

  • Abdias do Nascimento: escritor, ativista e senador que levou a discussão sobre a questão racial ao Congresso Nacional.

  • Mário Juruna: liderança Xavante e primeiro deputado federal indígena eleito no Brasil, em 1982.

  • Joênia Wapichana: primeira mulher indígena eleita deputada federal.

  • Sônia Guajajara e Célia Xakriabá: lideranças indígenas que ampliaram a presença dos povos originários no Congresso Nacional e nos espaços de decisão política.


Essas trajetórias são diferentes entre si. Não representam uma única visão de mundo, nem precisam representar. O que me chama a atenção é que, durante tanto tempo, a presença dessas pessoas nos espaços de poder foi tratada como algo extraordinário, enquanto a presença de outros grupos foi recebida como parte natural da política brasileira.


E é justamente essa diferença que me faz questionar: será que estamos realmente acostumados a reconhecer a diversidade de quem pode pensar, liderar e decidir os rumos do país?


Não estou dizendo que uma pessoa negra ou indígena será necessariamente melhor governante por causa de sua origem. Seria contraditório defender a diversidade de pensamento e, ao mesmo tempo, reduzir alguém à sua identidade.


O que defendo é que essas pessoas tenham condições reais de participar, apresentar suas ideias e disputar os espaços de poder sem que sua capacidade seja colocada em dúvida antes mesmo de serem ouvidas.


Uma Pauta de Consciência, Não de Cartilha


Diante de séculos de história e de tantas desigualdades na ocupação dos espaços de decisão, a pergunta que fica é muito simples:


Quem é você, Brasil?


Um país que se reconhece como diverso, mas que ainda precisa aprender a enxergar essa diversidade nos lugares onde as decisões são tomadas?

Um país que valoriza sua história, mas que ainda tem dificuldade de reconhecer a contribuição de tantos povos para sua formação?

Ou um país que está disposto a questionar as próprias referências e compreender que sua identidade não pode ser resumida a uma única história?


Esta reflexão não é um fórum de debates, não é uma tentativa de impor verdades e muito menos de condenar quem pensa diferente de mim. É apenas o exercício livre do meu pensamento, ancorado na minha própria caminhada como mulher negra, escritora e cidadã afro-brasileira. Não quero que ninguém vote como eu. Quero que cada pessoa tenha condições de pensar sobre suas escolhas, conhecer a história que nos trouxe até aqui e compreender o que está em jogo quando decidimos quem ocupará os espaços de poder.

A pauta da representatividade negra e indígena não pertence a uma única corrente ideológica ou cartilha partidária. Ela também não exige que todos pensem da mesma maneira. Trata-se de reconhecer que a história do Brasil é formada por diferentes povos, experiências e perspectivas — e que essa diversidade precisa ser considerada quando falamos de democracia, participação e poder.


Afinal, entender de onde viemos não determina para onde devemos ir. Mas pode nos ajudar a compreender melhor os caminhos que escolhemos. E talvez seja justamente por isso que eu continue fazendo essas perguntas. Porque questionar o inquestionável também é uma forma de exercer a cidadania.


Quer continuar essa jornada comigo?



Agora me diga você: O que pensa sobre isso? Como a literatura tem exigido coragem da sua própria leitura?

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