METAMORFOSE
Uiara Mei
Um romance introspectivo sobre os silêncios que nos moldam

Anna Carolina tinha dezessete anos quando essa história começou. Nove anos depois, ela olha para trás e precisa lidar com as escolhas, relações e acontecimentos que atravessaram sua vida.
Metamorfose acompanha esse percurso sem transformar seus personagens em heróis ou vilões fáceis. É uma história sobre amadurecer, desejo, escolhas e as consequências que permanecem quando determinadas decisões já não podem ser desfeitas.
Deguste o início da jornada de Anna Carolina
CAPÍTULO I
Batata Quente
[— Que susto, Matheus — sussurrei.
— Desculpe, não quis te assustar — respondeu com um tom sério que me atravessou.
Meu coração acelerou. Sentei do outro lado da cama, o pressentimento queimando por dentro.
— Estou ouvindo — disse, com a voz baixa, quase sem ar.
Ele respirou fundo antes de falar, como quem busca força para fazer algo inevitável.
Disse que pensou muito. Que me amava. Mas que precisava de um tempo. Que não se tratava de divórcio, mas de respiro. Que deixar-me livre para resolver minha história com Caio talvez fosse a melhor decisão. Que tinha responsabilidades demais, cobranças, a empresa do pai, e um limite que finalmente tinha alcançado. Pediu apenas que mantivéssemos as aparências. Disse que no dia seguinte eu poderia voltar para casa com Noah. Que ele ficaria em outro lugar. E que não me esperaria para sempre.
Eu só chorava. Não consegui dizer nada. Apenas o escutei.
Matheus continuou. Disse que não queria me machucar mais do que já tinha me machucado. Que, por mais contraditório que parecesse, era por amor que estava me dando aquela chance. Estava doendo nele também. Suas lágrimas não o deixavam mentir.
Me aproximei, sentindo o peito apertado de tantas ausências.
— O que fizemos conosco? — murmurei, sem esperar resposta.
— Eu te amo, Anna — ele disse, me abraçando.
Fechei os olhos no abraço, sem saber onde me agarrar, pois desejei esse abraço por dias.
— Como eu não sei o que quero agora, vou respeitar a sua decisão. Amanhã vou para casa — respondi, ainda entre seus braços.
— Eu levo vocês — ele prometeu.
Nos beijamos, um beijo molhado, trêmulo, cheio de tudo que não sabíamos nomear. E naquela noite, nos amamos como se soubéssemos que seria a última vez.
Uma despedida sem palavras. Uma entrega sem garantia.
Fim. E começo de um luto mais profundo.]
Alguns momentos definem uma vida, ainda que a consciência desse fato só venha muito depois. Em 2013, em algum lugar abafado de Macaé, sob um verão de 36 graus, uma jovem de 17 anos, prestes a completar 18, acreditava saber tudo sobre o mundo e o amor. Mas aos 26, a perspectiva se transformava, como se o tempo tivesse descascado as certezas que antes pareciam inabaláveis. Revisitar aquele período era como abrir uma caixa guardada há anos, contendo lembranças que, por muito tempo, preferiu não tocar. Havia um peso naquele gesto, uma resistência silenciosa, mas no fundo, sabia que era inevitável.
Naquele dia, enquanto revirava gavetas, encontrou um velho caderno. As páginas estavam amareladas pelo tempo, mas as palavras, escritas com tanta intensidade, permaneciam vivas. Ao folheá-lo, a memória se impôs sem pedir licença. Cada frase carregava ecos de um passado que, embora distante, ainda sabia doer. E mesmo sabendo que algumas palavras trariam lágrimas, os olhos se detiveram ali, presos às histórias que um dia acreditou serem definitivas.
Algumas histórias não são fáceis de contar, mas há momentos na vida em que o silêncio pesa mais do que qualquer palavra. Era assim que Anna Carolina se sentia ao revisitar seu passado. Nove anos haviam transcorrido desde que conheceu Caio e Matheus, dois nomes que, de formas distintas, marcaram sua trajetória como uma tempestade inevitável. Olhando para trás, percebia o quanto aquela jovem de 17 anos ainda não sabia sobre o amor, a perda e as escolhas que moldariam quem ela viria a ser.
Na porta do armário, estavam as fotos dos ídolos que um dia pareceram inalcançáveis: Backstreet Boys, Bon Jovi, One Direction. Imagens recortadas de revistas e cuidadosamente coladas, como se fossem portais para um futuro que ela desejava, mas nunca ousou acreditar de verdade. Passava as tardes olhando para aquelas figuras, sonhando com um destino grandioso. A ilusão da fama a encantava, mas a realidade a prendia em um quarto de três por quatro, com paredes lilases e papel de parede floral na cabeceira da cama. A contradição era sufocante: queria estar em outro lugar, mas, ao mesmo tempo, aquele espaço pequeno era o único onde se sentia livre para existir sem a pressão dos outros.
O pensamento se desviou para Thiago. Havia algo nele que a fazia perder o fôlego sem razão aparente. Ele não era perfeito, longe disso. Mas os olhos cor de mel, as mãos longas e delicadas, o cabelo castanho-escuro e o calor que exalava da pele quente... tudo nele parecia ter sido desenhado para provocar um encanto discreto. O que mais a prendia, no entanto, era o sorriso. Havia algo ali, uma gentileza rara, uma promessa silenciosa de que o mundo poderia ser menos árido se ela se permitisse sentir. Por um instante, se perdeu na lembrança, o coração oscilando entre a realidade e a fantasia. Mas a consciência a puxou de volta. O almoço esperava, e com ele, a rotina que nunca se quebrava.
Na mesa, o silêncio dominava como de costume. A família reunida em torno da comida, trocando palavras espaçadas, sem muito o que dizer. A avó estava mais presente desde a morte do avô. Talvez encontrasse conforto na casa dos filhos, evitando a solidão.
Algumas histórias terminam...
A jornada da Anna está apenas começando...
Você acabou de dar os primeiros passos em um romance intenso de 562 páginas repleto de segredos, reviravoltas e escolhas que vão mudar tudo. O que você leu foi apenas a ponta do iceberg.Prepare-se para se perder em uma história profunda, onde cada capítulo vai te fazer questionar o que vem a seguir.
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Sobre Metamorfose
Metamorfose foi publicado originalmente em 2025 sob o pseudônimo Uiara Mei. Hoje, assino minha produção como Uiara Ashanti. Metamorfose, porém, permanece parte da minha trajetória literária sob o nome com que foi originalmente publicado.
Uma história sobre escolhas, amadurecimento, desejo, consequências e as transformações que acontecem enquanto ainda estamos tentando entender quem estamos nos tornando
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Algumas histórias terminam. Outras continuam mudando dentro de quem as lê.
Se quiser descobrir o que aconteceu com a Anna, continue a leitura.
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Mídia
Sobre a Escritora

Escritora, ensaísta e pesquisadora da memória e da narrativa. Graduada em Pedagogia e graduanda em História, atua na investigação de histórias apagadas, na literatura de ficção e não ficção e no desenvolvimento de estudos sobre ancestralidade e identidade. É criadora do portal Narrativas Introspectivas® e autora de romances como Metamorfose, Zafhira e Sem Sombra.
©2025 - 2026 por Uiara Ashanti
